21 de dezembro de 2010

'Meu amor,

É de dar vergonha tanto amor. É latifúndio coronário, monocultura cardíaca – como um país inteiro plantado aos pés dela. O delírio repetindo igualzinho. Você me emociona. Parece feita de terra. Tudo é verdade começando por você, quando você se coloca na frente – como se a janela compreendesse a moldura e a paisagem, então, onde quer que você a coloque, terá sempre a mesma visão. Promete que entende tudo o que eu digo? E por detrás desse jeito de menina selvagem, mas menina, mas selvagem, vê-se o vulcão. Por isso ao seu lado faz calor. Por mim o mundo não vivia. O mundo pode espernear à vontade. Eu ainda vou fazer uma canção pra você. Vou apontar e te dizer, “olha que lindo!” e você vai sorrir pra mim, olhando nos meus olhos sem nem se importar com o que eu estou apontando. Você é a coisa mais bonita que eu já vi. Você e o mar, mas o mar é mulher e mulher só você. Essa frase é da nossa canção. Quero te ver feliz. Matar e morrer com você pra você por você. Em um dos nossos primeiros encontros te dei um livro. Queria te mostrar como é violento você existir. Meu olho dói quanto te vê. Pensei em comprar um machado, um guindaste, um viaduto. Vou te morder os dentes. Pensa em mim pra eu existir. Eu poderia passar o resto da vida acreditando em você e te dizendo “vai…”, “vai lá ver como é…”. Não comprei machado, nem bigorna ou trator, mas te dei o livro.'

17 de novembro de 2010

Dia branco


Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

14 de outubro de 2010

Aconteceu

Aconteceu quando a gente não esperava 
Aconteceu sem um sino pra tocar 
Aconteceu diferente das histórias 
Que os romances e a memória 
Têm costume de contar 
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas 
Aconteceu sem um raio de luar 
O nosso amor foi chegando de mansinho 
Se espalhou devagarinho 
Foi ficando até ficar 
Aconteceu sem que o mundo agradecesse 
Sem que rosas florescessem 
Sem um canto de louvor 
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama 
Só o tempo fez a cama 
Como em todo grande amor


[Adriana Calcanhoto]

28 de setembro de 2010

(L)

'Eu quero ser possuída por você,pelo seu corpo, 
pela sua proteção, pelo seu sangue. 
Me ama! 
Eu quero que você me ame e fique eternamente me amando dentro de mim. 
Com sua carne e o seu amor. 
Eternamente, infinitamente dentro de mim 
me envolvendo, me decifrando, me consumindo, me revelando... 
Como uma tarde dentro do elevador, no verão, voltando da praia 
e você me abraçou e eu te abracei... 
E quanto mais eu me entregava, mais nascia o meu desejo, 
Mais sobrava só o desejo, e mais eu te queria sem palavras, sem pensamentos... 
A vida inteira resumida só no desejo da tua boca dizendo o meu nome, 
Da tua mão conduzindo a minha mão, 
Do teu corpo revelando o meu corpo, 
Como se o mundo fosse pela primeira vez, 
Você o meu ponto de referência nessa cidade...'


_______




'Não domino mais o meu coração
Já não sou mais o dono de mim.
Perto de você tenho a sensação que estou preso e não quero fugir
Não posso conter a minha paixão, quando sinto você me tocar
Não sei controlar minhas emoções
Eu adoro o seu jeito de amar
Eu gosto demais de tudo que você faz
Em tudo eu sou seu fã
Eu gosto do seu jeito de sentir prazer
Eu gosto demais do modo que me seduz
Do jeito que me possui
Por isso é que não posso viver sem você'

27 de setembro de 2010

Bem devagar

Sem correr
Bem devagar
A felicidade voltou para mim
Sem perceber
Sem suspeitar
O meu coração deixou você surgir
E como o despertar depois de um sonho mau
Eu vi o amor sorrindo em seu olhar
E a beleza da ternura de sentir você
Chegou sem correr
Bem devagar
Amor velho que se perde
Sai correndo para outro ninho
Amor novo que se ganha
Vem sem pressa, vem mansinho


[Gilberto Gil]

16 de setembro de 2010

...

Canta! Canta!
Mesmo que o momento seja só lembranças
E a gente agradece pela vida
Vida
Da forma que seja misterio
Incertezas
De Luta 
De paz e amor


[Renato Vargas]

9 de setembro de 2010

Vinte anos Blues

Ontem de manhã quando acordei
Olhei a vida e me espantei
Eu tenho mais de 20 anos
E eu tenho mais de mil perguntas sem respostas
Estou ligada num futuro blue
Os meus pais nas minhas costas
As raizes na marquise
Eu tenho mais de vinte muros
O sangue jorra pelos furos pelas veias de um jornal
Eu não te quero
Eu te quero mal
Essa calma que inventei, bem sei
Custou as contas que contei

Eu tenho mais de 20 anos
E eu quero as cores e os colirios
Meus delirios
Estou ligada num futuro blue
Os meus pais nas minhas costas
As raizes na marquise
Eu tenho mais de vinte muros
O sangue jorra pelos furos pelas veias de um jornal
Eu não te quero
Eu te quero mal
Ontem de manhã quando acordei
Olhei a vida e me espantei
Eu tenho mais de 20 anos

[Vitor Martins e Sueli Costa na voz de Elis Regina]

30 de agosto de 2010

Anyway...

que aconteça, que deixe marcas boas ou más, lembranças, tristes ou alegres, n'importe quoi. que deixe material para o baú da memória, penso sempre assim, até nas maiores saias justas...

[Caio F. Abreu]


Não respondo as ofensas,
e nem desperdiço meu tempo com gente desimportante.
That's all.

20 de agosto de 2010

Choro Bandido

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons

[Chico Buarque]

19 de agosto de 2010

Acordei meio Leminski

a noite

me pinga uma estrela no olho

e passa


__

eu te fiz

agora



sou teu deus

poema



ajoelha

e

me

adora
__


tarde de vento

até as árvores

querem vir para dentro


__



só

lamente

uma

vez


__



minha alma breve breve

o elemento mais leve

na tabela de mendeleiev

17 de agosto de 2010

Novo gadget

Pra organizar as imagens bonitinhas e manter este blog somente com textos,
agora eu tenho um tumblr
CLICA AQUI Ó

Beijos.

13 de agosto de 2010

Descobrindo Adélia Prado

A TERCEIRA VIA

Jonathan me traiu com uma mulher que não sofreu por ele um terço do que eu sofri
Uma mulher turista espairecendo na Europa
Jonathan é bastante tolo
Estou sem saber se mudo para alguém mais ladino, se espero Jonathan crescer
Sem descasar-me, sem gastar um tostão o moço oferece-me pensamentos diários com irresistível margem de perigos
Posso ficar tísica, posso engordar, posso entender de física, posso jejuar
Produzindo sua imagem na hora mais quente do dia.
Ismália me diz “Deus é um tijolo, está aqui no nariz do meu cachorro. Eu sou puro pecado”.
E imediatamente come docinho de aletria com descansada certeza: “irei salvar-me porque Deus me ama”.
Não tenho o peito de Ismália para chegar perto de Deus, por isso fico ganindo e chego perto dos homens
Cheiro a camisa de Pedro, o trago ingrato de Jonathan.
Todos viram que minha boca secou quando disse muito prazer e desfaleci na cadeira.
O amor me envergonha
Da geração da cachaça, do é ou não é, do ou casa ou vai para o convento, não posso ser gay e dizer depende, vou ver, vou tratar do seu caso.
Comigo é na pândega ou na santidade mais rigrosa.
Eu não servia para ter nascido, para comer com boca, andar com pés
E ter dentro de mim oito metros de tripas desejando a filigrama de tua íris
Cuja cor não digo para não estragar tudo e novamente ficar coberta de ridículo.
Sei agora, a duras penas, porque os santos levitam
Sem o corpo a alma de um homem não goza, por isso Cristo sofreu no corpo a sua paixão. Adoro Cristo na cruz.
Meu desejo é atômico, minha unha é como meu sexo. Meu pé te deseja, meu nariz
Meu espírito – que é o alento de Deus em mim – te deseja
Pra fazer não sei o que com você.
Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar e ter um monte de filhos.
Quero você na minha frente, estático – Francisco e o Serafim, abrasados -, e eu para todo o sempre olhando, olhando, olhando…

6 de agosto de 2010

Chico Buarque in Budapeste

Preferi humilhá-lo com a poesia, arte que ele ignorava, e que o faria sofrer muito mais por não saber onde lhe doía. Eu declamava os versos lentamente, havia palavras que eu quase soletrava, pelo prazer de vê-lo se remexer na cadeira. Eu fazia longas pausas, silêncios que só um poeta se permite, e ele baixava o olho, olhava para o lado, para seus montes de livros, chegou a juntar os livros no colo, fez menção de se retirar.

Técnicas e métodos de tortura muito usados por mim.

30 de julho de 2010

Um texto bem fofo...

A menina

Primeiro dia de aula. A menina escreveu seu nome completo na primeira página do caderno escolar, depois seu endereço, depois "Porto Alegre", depois "Rio Grande do Sul", depois "Brasil", "América do Sul", "Terra", "Sistema Solar", "Via Láctea" e "Universo". A menina sentada ao seu lado olhou, viu o que ela tinha escrito, e disse: "Faltou o CEP." Ficaram inimigas para o resto da vida. A menina era apaixonada pelo Marcos, o Marcos não lhe dava bola. Um dia, no recreio, uma bola chutada pelo Marcos bateu na sua coxa. Ele abanou de longe, gritou "Desculpa", depois foi difícil tomar banho de chuveiro sem molhar a coxa e apagar a marca da bola. Ela teve que ficar com a perna dobrada para fora do box, a mãe não entendeu o chão todo molhado, mas o que é que mãe entende de paixão? Quem dava bola para a menina era o Mozart, tão feio que o apelido dele na escola era "Feio". Foi ele quem disse que era perigoso ela andar com o endereço completo na primeira página do caderno. Por que perigoso? "Sei lá", disse o Mozart. "Com tanto sequestro." Ela não entendeu. Depois disse: ― Quero ver me encontrarem no Universo. Aí foi o Mozart que não entendeu. Naquele ano, a última página do caderno da menina estava toda coberta com o nome do Marcos repetido. Marcos e sobrenome, Marcos e sobrenome. Às vezes o nome dela com o sobrenome do Marcos. Às vezes o nome dos dois com o sobrenome dele. E na saída do último dia de aula antes das provas alguém arrancou o caderno das mãos dela e levou para o Marcos ver. Ela correu, tirou o caderno das mãos do Marcos e disse "Desculpa". Naquela noite chorou tanto que a mãe teve que lhe dar um calmante. Nunca mais falou com o Marcos. Nunca mais encheu seu caderno com o nome de alguém. Nunca mais se apaixonou, ou chorou, do mesmo jeito. Do pior dia da sua vida só o que repetiu muitas vezes, depois, foi o calmante. Pensou que se um dia saísse um livro com o seu diálogo com Marcos seria um livro de 100 páginas com "Desculpa!" na primeira página e "Desculpa" na última, e todas as outras páginas em branco. Seria o livro mais triste do mundo. Um professor disse para a menina que só havia um jeito de compreender o Universo. Ela devia pensar numa esfera dentro de uma esfera maior, dentro de uma esfera ainda maior, dentro de uma esfera maior ainda, até chegar a uma grande esfera que incluiria todas as outras, e que por sua vez estaria dentro da esfera menor. A menina então entendeu que a sua vizinha de classe tinha razão, era preciso botar o CEP. Num universo assim, era preciso fixar um detalhe para você nunca se perder. Nem que o detalhe fosse a mancha no teto do seu quarto. A menina disse para a Rute que era preciso escolher um detalhe da sua vida, em torno do qual o Universo se organizaria. Cada pessoa precisava escolher um momento, uma coisa, uma frase, um veraneio, um quindim, uma mancha no teto...


Um lugar em que pudesse ser encontrada, era isso.

[Luis Fernando Verissimo.]

26 de julho de 2010

É ter uma lista de compra de mercado na ponta da língua...

Namoro é ambição. É um final de semana a cada dia. É uma delicadeza insuportável, antecipar os movimentos e agradar quando não se espera. Gentileza em cima de gentileza, infindável.
Um cuidado para não magoar com aviso e pergunta, com aquela educação concedida a gestantes e idosos.
Namorar requer uma atenção absoluta. E não reclame: amar pode ser para toda a vida quando oferecemos toda a nossa vida. Tem que se preparar, ceder, abrir espaço, oferecer, renunciar.A inquietação nasce da paciência. A criatividade nasce de uma porta fechada.[...] No namoro, não existe como ser egoísta. Egoísmo se deixa no JK.
É pensar pelo outro, com o outro, como o outro. É ter uma lista de compra de mercado na ponta da língua, junto com o chiclete de melancia: qual a pasta de dente que ela usa, o xampu, o condicionador, o azeite, o leite que toma, o suco... Desconhecer a geladeira da namorada é passagem direta para o congelador.
É entrar numa livraria e pensar no livro que ela vai gostar, é entrar numa loja e pensar um vaso que combinaria com sua sala, é entrar no cemitério e sonhar com um mausoléu para a família, sim, planejar a morte junto - nada mais romântico.
É entrar em si mesmo e lustrar as memórias mais distantes para parecer orfão antes de sua chegada. 
 
[Fabro]

25 de julho de 2010

#caiofeelings

Não se preocupe comigo, meu amor.
Só estou a procura da felicidade [e de toda a verdade que isso implica.]
Não ligo de estar gorda, ser chamada de futil, alienada...

Pra mim,
o que importa é ser feliz.